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Livro: Coração Americano | Andréa Estanilau
Prefácio: Chico Amaral
Data: 2013-08-01
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CLUBE DA ESQUINA

Nada Será Como Antes, Cais, Nuvem Cigana, Trem Azul, Saídas e Bandeiras, Um Girassol da Cor de seus Cabelos, San Vicente, Cravo e Canela, Tudo que Você Podia Ser, eis algumas das obras-primas deste disco antológico, o Clube da Esquina, disco de Milton Nascimento e Lô Borges, de 1972.  Um grupo de músicos e compositores, encabeçado espontaneamente por Milton, realiza naquele ano um trabalho assombroso, que mexe com todos os parâmetros da cultura musical do país. É difícil, até hoje, apontar as origens daquelas composições. De onde saiu uma música como Cais, por exemplo? A melodia era nova, jamais sonhada antes. Não estava no samba, nem na bossa nova. E não apenas a melodia, mas também a rítmica, a harmonia, o arranjo (ouça o tema do piano no final da música) e a letra. Cada faixa apresenta o mesmo grau inacreditável de originalidade.

Pode-se imaginar algumas linhas de influência deste trabalho.Talvez Dos Cruces seja uma visita ao Sketches of Spain, da dupla Miles Davis e Gil Evans. É também a América Espanhola, que sempre esteve na cabeça musical de Milton. Daí temos ainda San Vicente. Quem nunca ouviu o bolero Dos Cruces em sua versão original, não imagina a transformação que Milton ali operou.

Em Me Deixa em Paz, do grande sambista Monsueto, temos, além da voz de Alaíde Costa, um violão espetacular do próprio Milton, recriando o samba de uma maneira inédita. Penso que esta gravação seja uma das maiores da história do samba. Há algo de Jorge Ben nela. No violão e no falsete com que Milton acompanha Alaíde. Temos aqui, em tudo isso, o atavismo do samba, o samba do quilombo, o ouro negro.

A balada Trem Azul, bem como as demais composições de Lô, mostram, com clareza, que havia mais do que a influência dos Beatles, em seu trabalho. Ele havia alcançado, antes dos vinte anos, o patamar dos grandes compositores. Suas músicas (nenhuma se parecendo com a dos Beatles) traziam novidade melódica e harmônica, dentro de uma forma impecável. Talvez Lô seja o maior compositor de sua geração, no mundo todo. Trem Azul tem uma certa atmosfera do Pink Floyd, mas sua construção é inédita. Poderia estar em Eric Satie, ou Debussy! No entanto, ele nos diz nesse livro, com o despojamento de sempre, que sua contribuição para a música de Milton foi o violão tocado com  palheta.

Algumas questões merecem atenção, quando falamos do Clube da Esquina, o grupo de músicos. Muitas vezes a crítica do eixo Rio-São Paulo o coloca como menos importante que o Tropicalismo. Este parecia, de fato, um movimento. “Eu organizo o movimento/ eu oriento o carnaval”, cantava esse poeta solar que é Caetano Veloso. Os tropicalistas lidaram com a música e com questões várias da cultura brasileira. O Clube da Esquina partiu da música para chegar na música. Não estava preocupado com as contradições musicais, tipo jovem guarda versus bossa nova. As contradições sociais e culturais – a bossa e a palhoça, o culto e o inculto, o preto e o branco, o erudito e o pop, a vanguarda e a massa, o nacional e o internacional - Milton as resolvia à sua maneira, em sua pessoa singular e com seus amigos.  O grupo portava, talvez mais que o tropicalismo, uma mirada planetária, onde cabiam grupos ingleses de rock, Miles Davis, música clássica francesa, polirritmia africana, a música brasileira de então (Tamba, Baden, Edu...) e sabe-se lá o que mais. Não foi um movimento, e sim um momento, em que as experiências musicais daqueles jovens se entrelaçaram.

Chico Amaral




 






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