chico@chicoamaral.com.br 
Inicio
Textos | Prefácios
Livro: A Música na Cidade | Leonardo M. Gomes
Prefácio: Chico Amaral
Data: 2013-08-01

Chico Amaral lança livro sobre a obra de Milton Nascimento

O argumento deste livro é simples, sem deixar de ser ousado: a cidade de Belo Horizonte é uma daquelas cidades que produzem música com estilo próprio. Como Viena, Buenos Aires, Nova Orleans, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Salvador, Recife, e tantas mais. Conforme sua história, suas características sociais e culturais, estas cidades cristalizaram, num momento ou noutro, uma forma inconfundível de se fazer música.

Leonardo José Magalhães Gomes aponta o instante preciso em que Belo Horizonte alcança tal condição: final dos anos 60, século XX, com o trabalho dos músicos e compositores do Clube da Esquina. Foram necessárias muitas décadas para essa maturação. É o percurso de uma musicalidade no tempo, anotado com diligência pelo autor, que dá corpo a sua historiografia.  No caldeirão de influências e raízes está a música colonial, com uma tradição apurada, laica e religiosa, vinda da precoce civilização urbana dos séculos do ouro e do diamante.  Estão também as diversas formas folclóricas, danças, modas de viola e de sanfona, batuques, folguedos, modinhas, congados, marujadas.E quando a cidade substitui o arraial, as novas influências urbanas se colocam: bandas de música, orquestras sinfônicas, orquestras de dança, música para cinema, música de rádio. É o século XX que desfila ante nossos olhos, transformando a arte musical, que por sua vez vai lhe moldando também.

Juntando todos esses estratos da música mineira, num ensaio que consegue ser minucioso dentro de sua brevidade, Leonardo José Magalhães Gomes nos leva até Milton Nascimento. “Certamente o principal catalizador do clube, a verdadeira esquina em torno da qual flui seu tráfego musical”, afirma o historiador. Se antes a cidade era perfeitamente capaz de acompanhar o século e produzir música de qualidade, com bons artistas que compuseram sambas, marchas, foxes e bossa-nova, com a atuação genial de Milton e de seus companheiros, algo novo se produz. Algo inédito mesmo na música no planeta. E com a surpreendente síntese que Minas Gerais já havia apresentado em outras artes.

-ooooo-

Numa noite nos anos 70, pude ouvir um grupo tocando violão de maneira informal, num bar da rua Santa Rita Durão, zona sul de Belo Horizonte. Entre boas canções de música popular brasileira, tocaram Beco do Mota, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Foi ali que eu percebi, com a intuição apurada que a juventude às vezes tem, o que anos mais maduros de estudo musical me confirmaram: aquela canção era uma novidade dentro da música brasileira. Trazia uma densidade rara. Era forte e fluente, com sua linha melódica sofisticada.

Clube da Esquina era, de início, apenas o nome de uma canção. Saiu no disco “Milton”, de 1970, aquele com o desenho africano de Milton na capa, que hoje me remete à capa de Bitches Brew, de Miles Davis. Esse disco já representa bem o que posteriormente, a partir do disco intitulado Clube da Esquina, de 1972, foi identificado como um grupo e até um movimento. A canção é assinada por Milton, Lô e Márcio Borges. É, desde sempre, um bonito lamento urbano de jovens dentro da solidão do mundo. Como as demais canções dos autores, coloca a música brasileira, como o Tropicalismo também o fizera, diante de outro pensamento harmônico.

Caetano Veloso conta, no livro Verdade Tropical, como resolveu, com Gilberto Gil, experimentar com os acordes maiores em novas relações, como os Beatles vinham fazendo. Deste pensamento se beneficiaram, por exemplo, Bom Dia, Alegria, Alegria e Divino, Maravilhoso.  Já não estamos mais na bossa-nova, com suas harmonias resolutivas, com funções encadeadas, baseadas em grande parte nos procedimentos harmônicos da canção americana. Se Lô Borges já dominava muito cedo as harmonias dos Beatles, além das músicas que ouvia em casa com seus irmãos mais velhos, Milton, que era colega destes, conhecia bem o que artistas como Baden Powell, Tamba Trio, Edu Lobo tinham feito até ali. A bossa já era outra. Por isso encontramos numa canção como Clube da Esquina um pouco de violão “estradeiro” e uma harmonia impressionista, com o centro tonal em ré maior, mas com acordes simples fugindo, aqui e ali, da escala de ré. Numa canção relativamente curta, como Clube da Esquina, Milton e Lô alcançam, de modo conciso, o máximo de riqueza harmônica e melódica.

A harmonia que o grupo de músicos mineiros apresenta, é, antes de  tudo, aprofundamento da música brasileira da primeira metade dos anos 60. Evolução do que Luiz Eça, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Edu Lobo, Baden Powell e outros, vinham fazendo. Havia, entre muita coisa, uma atração pelo modalismo, influência de Miles Davis, mas não apenas isso. O Brasil sempre foi rico em música modal. Milton, como Edu fizera, vai se servir do modalismo, misturando-o com harmonia tonal também. A ligação com a moderna música brasileira deu um aspecto diferente a essa fusão do Clube da Esquina. Em relação a Sérgio Mendes, Edu e os demais, o clube tinha mais rock. Em relação ao tropicalismo, tinha mais música brasileira pós-bossa-nova.

Em torno daquela esquina onde estava Milton, apareceriam, além de Lô Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Beto Guedes, Nelson Ângelo, Tavinho Moura, Flávio Venturini e muitos outros. Um grupo com tanta consistência individual e personalidade, não passaria desapercebido em nenhuma parte do mundo. Cada qual vem trazer, com seu estilo e suas descobertas , uma contribuição significativa para a música popular brasileira.

Nunca é demais lembrar que os principais letristas do grupo mineiro, Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos, foram parte da diferença. Com letras ousadas, muitas vezes dispensando o uso de rimas, a anos-luz das temáticas lírico-amorosas de sempre, e um tanto marginais mesmo em relação ao tropicalismo, formaram uma esplêndida unidade com a inovação musical que ali se apresentava.

Leonardo José Magalhães Gomes aponta ainda, no final de seu estudo, uma plêiade de músicos que, ou foram influenciados, de algum modo, pelo Clube da Esquina, ou, seguindo outro caminho, se beneficiaram de uma rica construção cultural que consolidou um repertório, deu credibilidade aos músicos mineiros, abriu espaços e conquistou seu público.

Com A Música da Cidade,  Magalhães Gomes dá prosseguimento a uma preciosa trilogia historiográfica de Belo Horizonte, iniciada com  Memórias de Ruas- Dicionário Toponímico de Belo Horizonte,  e que será finalizada com BH- Cidade Descrita, sobre a literatura da cidade.

Chico Amaral




 






Página Inicial